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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Não existe amor em SP (Sarau Elo da Corrente)


"Não existe amor em SP/os bares estão cheios de almas tão vazias/a ganância vibra, a vaidade excita/devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel/aqui ninguém vai pro céu".


Não existe amor em SP. Não existe mais amor na dura poesia concreta de tuas esquinas; no picadinho dos restaurantes insípidos da Praça Júlio Prestes; no dó menor do bandolim, executado no chorinho vespertino da Benedito Calixto; no ar blasé das prostitutas do Jardim da Luz; o amor foi dissolvido num churrasco grego e devorado por uma legião de famélicos, em frente ao Largo do Paissandu; nos devaneios etílicos dos poetas, ao entardecer na Mercearia São Pedro; foi suprimido no achincalhar dos taxistas do Terminal Tietê; evaporou nos adstritos da Rua Helvétia; foi subtraído pelos punguistas da Rua Direita; diluído na adiposidade do pernil do Estadão; o amor se esvaiu no claustrofóbico vagão da Linha 3 do Metrô; aniquilou-se sob os acordes do rock'n roll, no Fofinho Rock Bar; foi pisoteado no horário de rush, na esquina da Augusta com a Paulista; o amor foi trocado em ouro, por um homem-sanduíche, numa gélida tarde na Barão de Itapetininga; o amor foi negado, julgado, e depois à revelia, foi sentenciado em versículos, por renitentes pastores, em templos evangélicos na Avenida São João; dissipou no canto gregoriano, sob o olhar sacro do monge beneditino, em plena missa dominical, no Mosteiro de São Bento; o amor foi mesclado, num chopp batizado do Bar Léo; deslizou em cálido sábado, na Ladeira Porto Geral; foi prostituído nos cabarés da Rua Augusta; no elixir bêbado nas escadarias da Catedral da Sé; foi conduzido às alturas, por um ascensorista, no Edifício Itália; deglutido por uma trupe de atores do Teatro Oficina; ignorado pelo olhar jocoso do engravatado da Oscar Freire; prostrado por cinéfilos em frente ao CineSesc; pigarreado por um transeunte no Largo da Batata; diagramado em fanzines e distribuídos no burburinho boêmio da Vila Madalena; logrado através de especulações imobiliárias na Vila Nova Conceição; esquecido num marca páginas de um vetusto livro do Sebo do Messias; foi encenado por sátiros canibais na Praça Roosevelt; afogado no fétido Tamanduateí; o amor ofegante foi auscultado às margens plácidas do Ipiranga; lido em tortuosas mãos por uma quiromante no Viaduto do Chá; sedado no Hospital das Clínicas; mas apesar dos dissabores, sobrevive, caro Criolo, nas mesas do Bar do Santista, em Pirituba; no Sarau Elo da Corrente, regado à poesia e ao ritmo frenético dos tambores; no lirismo dos poetas; na verve dos cronistas; no miocárdio dos romancistas; na cantilena dos trovadores e nos saraus da quebrada.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Os gatunos do Anhangabaú



Os gatunos do Anhangabaú são lépidos como os coelhos. Se reproduzem também com a mesma facilidade e quiçá, compartilham tenebrosamente do mesmo destino. Como os roedores, podem, por algum descuido, se transformar num guizado nas mãos da polícia.

Os gatunos do Anhangabaú não são autóctones. Geralmente migram de uma outra região. No entanto, depois de estabelecidos na região, são fiéis defensores da sua circunscrição. 

No frenesi de uma tarde de verão, esperam sorrateiramente a sua próxima vítima.

São criteriosos. Não agem por impulso, como os gatunos de outras regiões.

É necessário distingui-los.

É um erro crasso confundir um gatuno do Anhangabaú com um felino da Sé. Embora, à primeira vista, sejam semelhantes, os gatunos do Anhangabaú conservam traços peculiares.

Os gatunos do Anhangabaú são bressonianos na sua estética.

Os gatunos da Praça Clóvis, que atuam nas imediações do Poupa Tempo, por exemplo, são reichenbachianos.

Na Praça da República os gatunos têm o espírito alvissareiro. Abusam da cabotinice. Atitude totalmente reprovada pelos gatunos do Anhangabaú.

Os gatunos do Anhangabaú são altaneiros e pagam um preço alto por isso.

Na moda, à guisa da indumentária, divergem dos companheiros de profissão do Palácio dos Bandeirantes.

Os palacianos, majoritariamente de ternos, redundam na deselegância travestida de charme.

Os gatunos do Anhangabaú, para o deleite dos estilistas, são vanguardistas.

São feitos os cães sem plumas, do João Cabral de Melo Neto, mas ditam os estilos.

Os gatunos do Anhangabaú, por instinto de sobrevivência, são refratários a outras categorias de crime e castigo.

Desconhecem as cifras milionárias dos larápios do capital volátil.

Tampouco, cogitam retornar à categoria dos ladrões de "bicos de bípedes palmídes", como vomitaria Ruy Barbosa.

Equilibram-se no meio-fio da existência.

Os gatunos do Anhangabaú, contrários ao Meneghetti, detestam telhados e são vistos, com uma certa frequência, bebericando uma cerveja nos bares da Xavier de Toledo.

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domingo, 9 de agosto de 2015

O homem que engarrafava nuvens


Raskólnikov, personagem principal do "Crime e castigo", obra de Dostoiésvki e um dos grandes clássicos da literatura universal, classificava as pessoas, em geral, em duas categorias: os ordinários e os extraordinários.

Pois bem, parcos e ébrios leitores desse agonizante blog, sigamos em frente, antes que um neoconservador dos tristes trópicos, peça o impedimento dessa taberna virtual. 

Mário Pantaleão, o homenageado dessa crônica, era um homem, que eu e os meus destemperados botões, classificaria como homem extraordinário.

Os homens extraordinários -- sigo na minha tese dostoiésvkiana de botequim -- insistem em nos deixar precocemente. Porém, sigo renitente, batucando na minha caixinha de fósforos imaginária a cantilena popular, "diz o dito popular/morre o homem, fica a fama".

Sim, ficou a fama.

Mário, um iconoclasta impiedoso, feito os versos inclementes do poema "A piedade", do Piva, outro saudoso transgressor.

Corria o sangue do realismo fantástico nas suas veias.

Grande estórias de assombração.

"Assombrações do Brioso velho", se é que me permite essa adaptação, mestre de Apipucos.

Casas sendo destelhadas durante noites insones. A velha luz que persegue os cavaleiros na estrada da Canjarana. Árvores balançando furiosamente, amedrontando bêbados maltrapilhos.

Tu que me contaste a epopeia de um dos "feios, sujos e malvados" vidigalenses, que numa missão ao pantanal, desafiaste para uma peleja um gigantesco jacaré.

O famigerado réptil, depois do árduo embate, sucumbiu nos braços dos sertanejo, porém, não sem antes deixar vestígios da sua voracidade.

O algoz herdou a alcunha de Jacaré por toda vida e, também, um visceral buraco na perna, que foi curado, pasmem incrédulos leitores, com fumo de corda.

Outra carta que tiro do baralho das minhas memórias é a da passagem do craque Garrincha por solo vidigalense.

O anjo de pernas tortas, excursionando com o time dos Milionários, que era uma constelação de craques do passado, precisou de uma dose de insulina para ingressar em campo.

Mário, sim, ele mesmo, aplicou a dose no bicampeão mundial, que recomposto pode atuar alguns minutos em campo.

Numa certa noite, nos idos anos noventa, enquanto o hino da Internacional Comunista deslizava num vinil de 78 rotações e delirávamos em elucubrações etílicas, apontamos reminiscências do surrealismo e otra cositas mas numa escultura de madeira, feita por um amigo nosso.

O nosso personagem, com o seu Continental aceso por entre os dentes e sem pestanejar, como era costumeiro, interveio.

"Por acaso essa merda não foi aquele seu amiguinho que fez? Isso não vale nem pra acender churrasqueira, rapaz".

O nosso pedantismo artístico se esvaiu e começamos a falar de trivialidades, tais como a carestia de vida, a mulher do vizinho, os atrasos constantes dos ônibus e outras coisas que o meu amnésico cérebro não permitem lembrar.

"Eu lembro d'ocê, rapaz, quando cê vinha todo garboso a cavalo para vila. Ocê era o cancam da Barra Grande".

Hoje os súditos do Tio Sam apelidam de playboy. 

Eu, particularmente, prefiro a sua nomenclatura. "Cancam" é imbatível!

Um grande abraço, meu compadre.

Despeço com os versos do velho Nelson.

"Naquela mesa tá faltando ele/E a saudade dele tá doendo em mim/Naquela mesa tá faltando ele/E a saudade dele tá doendo em mim".

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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Crônica de uma saudade anunciada



Caro Paulo Mendes Campos, é verdade, "o amor acaba; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão".

A saudade, porém, saudoso poeta, jamais será dissipada. Resiste feito o viço de um remador diante de uma tormenta.

Como diria o cancioneiro, fica na pele feito tatuagem.

Tio, tu que me embalaste com afinco no lirismo das letras!

Bebi, como um ébrio, na tua pedagogia.

Tu, um bibliotecário de formação, que adotou a tipografia como ofício.

Gutenberguiano, por excelência.

Profissão que honraste, tal como outro imortal, o mítico Edgard Leuenroth.

Tio, tem uma crônica do Marcos Rey que é fantástica! Sempre que a leio lembro do senhor, pois o pai dele também era gráfico e tinha muita coisa em comum com a sua essência.

Pincelei alguns trechos pro senhor. Carece evocá-los agora.

"Muito antes de saber ler eu já vivia num mundo de histórias que meu pai, um gráfico, me contava. Velhos contos das Mil e uma Noites e de famosos livros infantis. Algumas ele próprio tentava inventar, mas não era seu forte. Geralmente fazia a maior confusão ou improvisava finais que nada tinham a ver com o princípio. Sua memória nunca foi grande coisa. Faltou-me dizer que enquanto me contava histórias ia bebendo bons goles de vinho. Gostava de beber principalmente à noitinha, depois do trabalho".

"- A leitura me faz voar.
- Voar?
- Voar. Infelizmente nunca pude viajar além de Campinas, mas nas asas de um livro viajo. Conheci o mundo, virando páginas. É mais cômodo. E não é preciso carregar malas, entendeu?"

"- As histórias e lendas que me contou de alguma forma me ajudaram a passar nos exames, pai. Senti mais chão sob meus pés.
- Acha que vai ser bom aluno?
- Tentarei.
- Mas, conseguindo ou não, faça algo ainda melhor. Ler. Há escritores e poetas que devem ser lidos. Lima Barreto, Drummond. Morrer sem conhecê-los é um vexame - disse após o primeiro gole. - A maioria dos doutores ignora tudo fora da profissão. O conhecimento deles cabe dentro de um pequeno escritório. Desconhecem o homem, desconhecem o mundo... Perdem o que se fez e se faz de melhor no planeta. Não gostaria que fosse um desses. Que tal?"

Gostou?

Maravilhosa, não é? Esse Marcos Rey também faz uma falta danada.

Tem razão, Tio! Nunca tive interesse por epopéias. Sou como o Manoel de Barros, "prezo insetos mais que aviões/Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis/Tenho em mim um atraso de nascença/Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos".

Por isso prefiro a cantilena das ruas. Como no poema do Bandeira, "não quero saber do lirismo que não é libertação".

Idealizo ofícios como o do senhor. No meu mundo o tipógrafo é um artesão das palavras.

Feito um jogador de cartas, sempre a embaralhar e a brincar com as palavras.

Por falar em profissões antigas, Tio, queria eu ter o habilidade de um relojoeiro.

Talvez pudesse parar o tempo e assim estender nossas conversas.

Outra coisa, antes que esqueça: herdei a sua formação.

Hoje sou bibliotecário e vivo catalogando utopias em comunidades de SP.

Tio, chega de delongas, não é verdade?

Desço por aqui mesmo, na Estação da Saudade.

Antes de me despedir, Tio, preciso lhe dizer que fiquei com aquele vinil do Adoniran.

Por falar no disco, -- eu sempre alongando a conversa -- ao contrário do personagem da canção "Iracema", não perdi o seu retrato.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Epifania 244: Parte 24



Velho Buk

Francisca se sobressaltou com tamanha desordem no apartamento do Velho. Quinze dias ausentes e o apartamento transformou-se numa bagunça generalizada. Escova de dente na sala, prato no quarto, cuecas espalhadas pelo banheiro, garrafas de uísque pelo chão, o cinzeiro transbordando de guimbas.
Que narquia é essa, hein Buk?
Anarquia porra nenhuma. Não é narquia, é anarquia, e isso aqui não é nada disso. Não confunda alhos com bugalhos. Isso aqui é bagunça mesmo.
E não é a mesma coisa?
Não é, nunca foi e nunca será, Francisca. Anarquia é ausência do Estado. Sem governo.
Só o senhor mesmo. Além de tudo agora me vem com revistinha de sacanagem espalhada pela casa. Perdeu a vergonha nessa idade?
Não perdi, Francisca, pois nunca tive – e caiu na gargalhada o Velho Buk.
Francisca trabalhava no apartamento desde que o Velho e Isaura se casaram. Era de extrema confiança. Relutou um pouco para continuar, depois do divórcio do casal, mas acabou cedendo. Tinha o Velho como um pai, por mais paradoxal que pudesse ser a situação. No fundo, Francisca se divertia com as travessuras do Velho.
Deu para andar de ceroula agora pela casa?
Tenho que desfrutar da minha liberdade agora.
Mas não comigo aqui na casa, né?
Tudo bem, Francisca. Vou por uma calça.
Deixa perguntar uma coisa. Desculpa a intromissão. Há anos vejo uma luva de lutador no guarda-roupa. Qual o motivo? O senhor coleciona?
O senhor está no céu, Francisca. A luva é de boxe. Eu fui um boxeador de prestígio na minha juventude. Rindo do quê? Eu não tinha essa barriga protuberante na época. Fui campeão paulistano pelo Clube Atlético Esparta. Nocauteei com a minha canhota muito valentão nos ringues.
Mudando de assunto, Buk, e a Dona Isaura? Tem notícias dela? Tenho muitas saudades dela.
Eu também tenho, Francisca.
Essa é boa! Muito boa. O senhor nunca ligou para ela. Perdeu um mulherão.
Ela que perdeu um partidão, apesar de não gostar de partido. Quando iremos tomar um uísque no Epifania?
Quando o Tonho puder vir para o Centro. Ele está trabalhando numa obra no Mooca. Correria, não tem mais tempo nem pra família. Já ia me esquecendo. A Bia te ligou de manhã. Até assustei com o telefone tocando naquele horário.
Ufa, apareceu a margarida. O que será que aconteceu?
Ela não quis falar, falou que ligaria novamente. Perguntou que horário te encontrava em casa. Eu respondi que essa era uma pergunta difícil. Ela conhece o pai que tem.
Se ela ligar novamente, pede o telefone dela. O dever me chama, tenho que resolver umas pendências lá no Epifania.
O Velho se trocou, despediu-se de Francisca e desceu para o Epifania. Ficou imaginando o que seria que Beatriz queria. Muito tempo que não a via. Raramente vinha a São Paulo. O Velho também nunca a visitou. Achava um martírio a viagem até o interior. Trocavam cartas.
Um ano que não via o neto. Como será que estaria? E o genro? Nunca foi com a cara dele. Sentimento recíproco.
O viço das árvores da avenida soprava-lhe os cabelos. Evocou novamente Beatriz. Lembrou da moringa de barro que ganhou em Atibaia, interior paulista, de um produtor de frutas. Segundo o produtor, o utensílio, nos tempos em que não havia energia elétrica, servia para refrescar a água. Não gelava como uma geladeira, mas também não esquentava a água, mantendo-a num frescor agradável. A relação com Bia era exatamente assim. Temperança.
Osório, uma cerveja hoje, por favor.
Que isso, Velho Buk? Vai na gelada hoje?
Preciso refrescar a cachola.
Problemas, meu amigo?
Possivelmente, Osório.
Acho que não. Tenho boas notícias. Localizei Adélia. Ela está trabalhando numa boate na Boca do Lixo. Estou com o endereço aqui. O Judenir, aquele cobrador de ônibus, que sempre está aqui, foi quem a encontrou. A esposa meteu o pé na bunda dele e ele foi para a zona esquecer um pouco a situação.
Osório tirou do bolso do avental o papel envolto no maço de cigarros, que, se por um lado era de alumínio, do outro lado tivera a serventia de ser usado como anotação do endereço da boate.
Velho Buk procurou, no bolso da calça de tergal, a lupa, para conferir o endereço. Saiu a chave do apartamento, o relógio de bolso, moedas, uma propaganda de imóvel, que havia recebido na esquina, por uma adolescente que tremulava, desesperadamente, uma bandeira do condomínio à venda. Só depois encontrou a lente. Tudo conspirando para angustiar mais o Velho.
O Velho decifrou o garrancho, que mais parecia receita de médico e depois, finalmente, pode checar o endereço, mal conseguindo conter a euforia.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A peleja da Virada Cultural com a "Noite branca" parisiense



Em solo parisiense, na “noite branca”, ouve-se as discípulas de Edith Piaf, tomando-se um vinho provençal/Em SP, sem esse espírito blasé, ouvimos Caetano Veloso e companhia na Virada Cultural.

Se eles, os franceses, tem o lirismo do Mallarmé, não ficamos para trás e na Barão de Limeira arrebentamos com o experimentalismo do Tom Zé.

Se, por acaso, blasfemarem que tiveram Sartre e o existencialismo há anos/Eu os repilo, pois temos num palco, o Paulinho Boca de Cantor interpretando os Novos Baianos.

Não me venha com esse papo, que com as cantigas francesas todo mundo pira/Vocês que nunca desfrutaram, no Palco República, da Orquestra Paulistana de Viola Caipira.

Ora bolas, que diabos de Simone de Beauvoir e “O segundo sexo”/Diacho, aqui temos Maria Alcina no Arouche, para deixar fundamentalista, é perplexo.

Lutar contra a Argélia, desculpa aí, mano, mas para mim é fratricida/Aqui compatriota nosso, curte na Júlio Prestes, o som envolvente do Emicida.

Serge Gainsbourg foi um ícone, eu reconheço/mas lá no Municipal terá o Ira num eterno recomeço.

Vocês têm Voltaire, Rousseau, Baudelaire e muitos outros pensadores/No Sesc Ipiranga terá Fausto Fawcett, Xico Sá e outros trovadores.

Cáspita, eu sei que ele não é francês, o Mastroianni/Só que para resgatar a Jovem Guarda, na São João, teremos é o Jerry Adriani.

E sem esse mimimi de Verlaine e Rimbaud/No Anhangabaú teremos os poetas suburbanos e demorô.

Bora lá, monsieur!!!

terça-feira, 16 de junho de 2015

O segredo de Joe Gould


Alvíssaras, alvíssaras, poetas do caos!

"Abaixo os puristas", saudoso Bandeira!

Queremos antes, já bradava o nosso poeta, o lirismo dos bêbados.

Bukowski, rogai por nós!

Inveterado leitor, caso saísse do hospital hoje, depois de um ano em estado de dormência, você teria dois desfechos, nada agradáveis, diga-se de passagem: ou acharia que desceu em lugar errado, ou clamaria pela volta ao leito letárgico.

A onda obscurantista, repleta de profetas medievais, nos assolam com dedos em riste.

Maestro, o blues da piedade, per favore!

"Vamos pedir piedade/Senhor, piedade/Pra essa gente careta e covarde".

Esqueçamos os blogueiros a serviço do capital!

Lembrem-se, libertários leitores, os tais blogueiros, ou pseudo-jornalistas, são bem pagos pela Casa Grande.

Por mais Joseph Mitchell, célebre jornalista literário americano!

"O segredo de Joe Gould" é um baita livraço do jornalista citado acima.

Para se ter uma noção do escriba, basta ler a frase retirada do obituário dele.

"Ele gostava de sonhadores e bêbados, e, para ele, as pessoas eram sempre tão grandes quanto seus sonhos".

Em época que o noticiário veicula a ida de celebridades à padaria, é de suma importância resgatar os mestres do jornalismo.

É salutar ingerir uma pequena dose homeopoética, quando a mídia refuta os personagens pequenos.

"Eles são tão grandes quanto você, seja você quem for".

Salve, salve Joseph Mitchell!

E para concluir, façamos coro ao poeta das quebradas, o aguerrido Sérgio Vaz: "Pela redução da mediocridade mental"!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Epifania 244: Parte 23



Eleonora

Eleonora continuou obstinadamente a procura pela mãe. Uma questão de honra encontrá-la. A sua ausência era atordoante. Eleonora arrumara trabalho de diarista em vários apartamentos. Tinha um horário mais flexível e, além de tudo, esquivara-se das humilhações constantes impostas pelos antigos patrões.
Aos poucos a vida ia se acertando, como um relógio que desanda a parar, mas que gradativamente vai reconquistando o ritmo.
O que a inquietava era dividir o apartamento com a irmã e o cunhado. Foi recebida com pompas de chefe de Estado. Não passou, por hipótese alguma, necessidade. Contudo, a situação deixava-a constrangida. O espaço era exíguo. Encontraria a mãe e alugaria um lugar para elas. Refutou a ideia da irmã de lutar por uma moradia. Acreditava na causa da luta da irmã, mas carecia da verve de uma militante.
A causa não é minha, Eleonora. A causa é de todos nós – tentou argumentar Jurema. Parece que você foi cooptada pela burguesia. Como o Paulo Freire dizia, “é a voz do opressor na boca do oprimido” – insistiu a irmã.
Eleonora, incólume, ouvia. Não tinha aversão ao movimento, nem sabia quem era aquele Paulo. Entendia a legitimidade da causa, mas achava que aquelas ideias não a pertenciam. Subjugada pelo sistema, nas palavras da irmã militante.
Eleonora só queria rever a mãe e alugar um quarto. Só isso, nada além disso. Desconstruiu na cadência existencial o significado dos sonhos. Fustigada por uma realidade mutilante, desaprendeu a sonhar.
Com o tempo, foi ficando mal vista pelo movimento, pois não participava dos atos coletivos, das assembleias. A liderança, pressionada pelos moradores, exigiu a saída de Eleonora da ocupação.
Jurema previra o desfecho. Mais dias, menos dias, iriam contestar a omissão de Eleonora.
É uma alienada, diziam.
      Eleonora era sim, uma rosa, que não desabrochou. Uma rosa que nasce cercada por adversidades e demora a compreender a grandeza da sua existência.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Minha Mãe



Caro Belchior, cadê você, que nunca mais apareceu aqui?

"Até parece que foi ontem minha mocidade". 

Na tarde fria, desta sexta-feira de maio, os seus versos ressoam como trombetas. No choque térmico dos meus afetos, a fusão da tarde gelada com o arrebatamento cálido das minhas lembranças, levam-me a uma variação brusca da temperatura lírica.

Apesar da densidade, das brumas da memória, recordo-me com exatidão do momento da partida. Do adeus, do grito contido, das lágrimas que irrompiam, feito chuva que não se anuncia e precipita na avalanche dos sentimentos. 

Cortava o cordão umbilical, e iria escrever, os primeiros capítulos da vida, longe de casa.

Na lira dos meus dezoito anos, eu era apenas "um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco" e, "mais angustiado que um goleiro na hora do gol".

"Saí de casa muito cedo/os trapos na minha sacola/camisa bordada no bolso/na mão direita a viola/principiava o mês de junho/o céu cinzento anunciava o inverno/o peito vazio de tudo/e a mala cheia de amor materno".

A minha Mãe, na ânsia de encorajar a sua prole, lançava toda a sua filosofia de autoajuda. Toda a sua práxis espartana esvaiu-se e a minha genitora aplicou-me pílulas de incentivos.

Sem àquelas palavras, teria desistido no primeiro quebra-molas das incertezas.

Mais perdido que um cachorro de mudança, ensaiava os primeiros passos da melodia orquestrada fora de casa.

À noite, embalado pelo cobertor da saudade, introjetava os comprimidos de incentivo, com as sábias palavras da minha Mãe. 

Hoje já são mais anos fora de casa, que na casa dos meus pais, propriamente dito; no entanto, ainda guardo no quarto e no coração, a "mala cheia de amor materno". 

"Os jardins da casa-grande/as trancas ficando pra trás/hoje, depois de algum tempo/eu sei que ficou muito mais/ficou um sentido de vida/uma filosofia, uma razão de ser/que a idade impediu de ser vista/e que hoje é a própria razão de viver". 

A todas Mães, que na liturgia incessante do afeto, entoam o cântico da proteção a todos os seus filhos, errantes navegantes.

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A Juriti



Ave César, saudemos esse vintage botequim, da família dos Peristerídeos! 

Eu, um reles apanhador num campo de cevada, e o meu costumeiro hábito de flanar pela alma encantadora das ruas, descobri, não muito por acaso, essa joia rara. 

Conjunção dos astros, sintonia entre Lua e Saturno, embalo e acerto astral, diria Quiroga.

Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão, retrucaria o Poetinha, ignorando a picaretagem astrológica.

E põe razão nisso, caros colegas bukowskianos.

"A Juriti", é uma ave columbiforme etílica que permanece incólume ao tempo!

Associo o botequim ao cenário da película alemã, "Adeus, Lênin!". Parece que os personagens, ou melhor, os habitués do bar foram preservados e vivem sob o espectro do passado.

E eu, caro Antonio Prata, que sou meio intelectual, meio de esquerda, fiquei fascinado por essa ave rara.

Sob a égide dos azulejos alentejanos edifiquei a minha nova morada.

Caro Lobão, tu que pensas no exílio em Miami, professo o meu alerta agourento: as aves que lá gorjeiam, não gorjeiam como cá.

Aqui tem outro atributo, renitente leitor, que não canso de ressaltar. O botequim foi frequentado e, sobretudo, referendado por um homem de moral.

Duas notas, quem é o dito cujo, maestro Zezinho?

É ele mesmo, sábio leitor.

Paulo Vanzolini, um dos maiores zoólogos do país. Compositor brasileiro, idem. Exímio especialista em répteis, ibidem.

O gênio rondou a cidade a te procurar. E te encontrou, "Rainha dos aperitivos".

E a encontrou na bucólica Rua Amarante, no portentoso bairro do Cambuci.

Ora, um zoólogo que se preza, jamais desprezará uma bela fruta. Ainda mais um fruto que alimenta uma parcela considerável de répteis.

O Seu Lindinho, proprietário, há mais de 40 anos do laureado bar, é também a simpatia em pessoa.

O Sílvio Santos há de convir comigo, que o Lindinho é "coisa nossa".

Aliás, todo conjunto é coisa nossa: botequim, história, dono, garçons, aperitivos e as saborosas iguarias.

Técnicos do Condephaat, eu lanço meu manifesto, a Juriti carece de tombamento.

Tombamento já!

E a incendiária porção de linguiça, intitulada Joana D'Arc, também.

Amnésico leitor, na próxima visita, não esqueça de provar a iguaria.

Só não vale sair à francesa e deixar de pagar a conta. 

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