O retrato de Dória Gray


Prezado e estimado Prefeito!

Venho, por meio desta missiva, inocular em você o vírus das minhas inquietações sobre a urbe paulistana. 

Essa taberna virtual, regada a elucubrações etílicas, carece de apresentar à Vossa Excelência a vida pulsante do centro de Éssepê.

Parcos e ébrios leitores, chega de delongas epistolares e vamos direto ao assunto.

Flanar pela alma encantadora das ruas é uma das especialidades desse blogue de butiquim.

Butiquim com u mesmo, como bem nos ensinou o genial compositor e cronista carioca Moacyr Luz.

Abandone o Rolls-Royce da complacência midiática e venha perambular pelo centro da Paulicéia.

Tracei um roteiro, caro Prefeito.

Comecemos com um pingado e um pão na chapa em qualquer copo sujo do Anhangabaú.

Às favas, o Starbucks, ilustre gestor.

Dólar Jr., ops... Dória Jr, depois de uma caminhada na 24 de Maio, sugiro uma ligeira parada na Casa da Mortadela. Topas, altivíssimo? Ou prefere um suculento lanche de pernil do Estadão?

Nós, com o estômago forrado, poderemos tomar avante uma cerveja num dos bares da Galeria do Rock.

Assim Vossa Excelência terá a oportunidade de conhecer diversas tribos.

Asseguro que irá contemplar o muro metafísico - noves fora o cinza - grafitado e colorido da diversidade.

Poderá usar o mantra "Viva os maluco", depois de uns copos a mais, para saudar a rapaziada, parodiando o brilhante escriba André Sant'Anna.

Estiquemos depois no Bar do Ceará. Seguindo um dos preceitos do "Guia da culinária ogra", do André Barcinski, a bebida tem que "descer bem" e não "harmonizar".

No boteco acima citado, a cerveja desce muitíssimo bem, obrigado, com a salsicha. Iguaria, cujo molho mais se assemelha ao Vedacit, como já ilustrei em crônicas pretéritas.

Lá verás discípulos de Malagueta, Perus e Bacanaço, feitos os personagens desse livraço do João Antonio.

Protagonistas maltrapilhos esmagados pela roda dilacerante do capital volátil.

A ralé gorkiana viu os seus sonhos serem privatizados pela turma da Casa Grande dos Jardins, mas não abandonou a luta.

Ilustre Prefeito, a crise hídrica da existência está caótica, porém, ainda verto Tamanduateí e Tietê de lágrimas vendo tamanha disparidade social.

Sei, magnífico Prefeito, que o seu tempo é escasso, mas para concluir, não posso furtar de alertá-lo sobre os malefícios da vaidade.

Faço, com a devida vênia, uma provocação caetaneada. "É que Narciso acha feio o que não é espelho".

Lembre-se disso, Vossa Excelência, o retrato poderá envelhecer e registrar todas as pecaminosas ações que corrompem a alma.

Fico por aqui, pois ainda tenho que tomar a derradeira no Ecla, vizinho de parede do Ceará.

Saudações e até a próxima, briosíssimo gestor.

Tim-tim!

Comentários

  1. Tantos lugares pro nosso gestor ir conhecer! Divertido texto Gustavo

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  2. Imagina a prosa do Irineu com o gestor à porta do Ceará. Seguida de um bate papo acompanhado de Guerrilheira, num Ecla em noite de partido do samba. O gestor internar-se-ia (olha a gramática do Ilegítimo! ) nos Alpes da Montanha Mágica. Ou jogar-se-ia das tubulações sobre o Tietê em eterna despoluiçao pelos seus amigos do Bandeirantes.

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    1. Genial, Felipe. Rindo muito aqui, camará. Abraço!

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